Certamente não será pela inovação da melodia ou pelas novas batidas. No entanto há de facto algo que me faz ter uma ligação muito emotiva com a música portuguesa que se ouviu neste país até eu ser chamada de gente.
Não, a ligação é emocional, talvez seja a minha forma de me identificar e partilhar sentimentos com aqueles que, sendo mais velhos do que eu e que pouco têm em comum comigo, persistem em ser importantes na minha vida.
Não, não é pela música em si na maioria das vezes mas pela história que evocam, pelos momentos que suscitam.
Estranhamente tocam-me bem fundo na alma, talvez seja a minha nova forma de patriotismo.
A Líbia está quase "livre" gritam a sete ventos os vários jornais nacionais e internacionais.
Decididamente vivemos num mundo de hipócritas que se fiam que todo o estúpido ser humano tem memória de peixinho. É verdade que a maioria o tem, mas como explicar ter-se recebido o Khadafi há pouquíssimos anos atrás com tanta pompa, circunstância e curiosidade e agora o homem passar de bestial a besta.
Será que dependemos de governos tão idiotas que só agora perceberam o que se passava naquele país?
Não vou ser ingénua ao ponto de achar que a honra e a palavra se sobrepõem aos interesses financeiros e políticos, bem sei que as coisas não funcionam assim e ainda bem. No entanto odeio que me tomem por parva e que não assumam os seus interesses.
O futuro da política está na mudança de rumo que é imperativa: deixar de parte o lado politicamente correcto e ter homens e mulheres com os ditos no sítio para assumir aquilo que fazem e os seus interesses. Não penso que o futuro passe por nos deixarmos enganar eternamente, passa sim por assumirmos o que fazemos e o que queremos, mesmo que isso não seja bonito e faça mal a alguém.
Sinto que este governo voltou atrás anos luz neste aspecto. Aliás, não existe homem mais demagógico em Portugal do que o Paulo Portas.
O Khadafi irá capitular, talvez esta noite. Já lhe capturaram os filhos, esperemos que os mantenham vivos. Veremos se quem vier faz melhor.
Depois do que falámos, discutimos, dissemos ou deixámos por dizer, dou por mim a tentar pôr fim a tudo isto, à procura de um fim efectivo e, ao mesmo tempo, a reabrir a porta porque me vou aproximar fisicamente de ti.
Falava ontem com um amigo sobre os motivos da minha escolha. Precisamente, um dos meus medos é que esta escolha tão difícil tenha um grande peso teu, ainda que inconscientemente. Tenho contigo uma relação de amor-ódio, dependência e distanciamento e por muito pouco são que isto possa parecer, acredito que é o nosso equilíbrio.
Hoje sei que não quero que a minha vida seja feita de uma experiência única vivida profundamente num acto de construção de algo. Não, quero coisas diferentes, pessoas diferentes com lugares diferentes dentro de mm. Certamente algumas perdurarão mais do que outras mas não quero pensar que vou ao teu encontro, que fazes parte do meu plano de futuro com essa certeza e segurança, tão clássicas!
Talvez por querer ter esta certeza luto tanto por um final. Mas o Eugénio de Andrade tem a sua razão...as palavras estão gastas.
Adeus
Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas em esperas inúteis.
Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro;
era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.
Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes.
E eu acreditava.
Acreditava, porque ao teu lado todas as coisas eram possíveis.
Mas isso era no tempo dos segredos,
era no tempo em que o teu corpo era um aquário,
era no tempo em que os meus olhos eram realmente peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco mas é verdade, uns olhos como todos os outros.
Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor, já não se passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome no silêncio do meu coração.
A coragem é feita de muitas coisas diferentes, de pequenos e grandes gestos, de actos heróicos ou de meras acções banais. Tudo é válido desde que, para nós, seja um acto de coragem.
Hoje, pela primeira vez em cinco anos tive a CORAGEM de ouvir esta música de novo.
Ouvi-a vezes sem fim nos momentos mais duros da minha vida, fez sofrer, carpir as mágoas, nunca esquecer. Sei que nunca mais irei sofrer como sofri nessa altura, há algo na história que nos torna imunes ao sofrimento quando passámos pelo pior sentimento do mundo, o da perda efectiva do que em tempos, ainda que fugazes, foi inteiramente nosso.
5 anos são muitos anos, são muitas imagens que o meu cérebro sugere espontâneamente e que afasto com jeitinho para o lado. Hoje sei que tudo é ultrapassável desde que queiramos e que não existe sofrimento pelo qual o ser humano não seja capaz de passar, sobreviver, e até ser feliz depois.
Sei que busco incessantemente essa forma de felicidade que é a minha, à minha maneira, talvez precisamente pela necessidade de mostrar a mim própria que ultrapassei mesmo o momento mais difícil da minha vida passada e futura, talvez por ter medo que um dia acorde e veja que afinal apenas não lidei com a situação.
Hoje ouvi de novo esta música. Fiquei pensativa, triste até. Mas continuei, segui em frente. E esse orgulho de ter conseguido, por muito que choque quase todos aqueles que me rodeiam, esse orgulho, faz-me viver e dá-me alento. E é disso que vivo todos os dias.
Ambiente cabaret, fumo no ar, homens de cabelos esbranquiçados acompanhados de senhoras francamente mais jovens mas nem por isso mais bonitas.
Cheira a decadência, a álcool, a sexo de ocasião mas cheira também a sedução, a momentos inesquecíveis na companhia de gente que já muito viveu e pouco soube construir, apenas viver.
Sei que a maioria das pessoas chamaria a esta gente os verdadeiros "vencidos da vida" mas não consigo deixar de me encantar por esta decadência chique onde homens e mulheres convivem livremente e sem complexos, onde se fala de mais do que o que passou ontem na TV ou de fraldas.
Chegou a altura de assumir isso livremente e, seja qual for aquilo que os outros à minha volta pensem, essa é profundamente a vida que quero viver ou pelo menos conhecer melhor ainda.
2012 vai ser um ano de muitas mudanças, o ano em que penso mudar definitivamente a minha vida. Partir, experimentar tudo de novo, o bom e o mau.
No entanto ultimamente tenho visto partir para novas aventuras algumas pessoas que me são particularmente queridas. E ao ver esse núcleo a desfazer-se não consigo ficar indiferente. Sei que vão para melhor, vão realizar sonhos e desejo a cada um deles nada menos do que toda a felicidade do mundo. Mas também sei que me custa vê-los partir, que secretamente quero aproveitar o máximo de tempo que me resta com cada um deles.
Sei que depois nada será igual, nunca mais.
Amar-nos-emos sempre da mesma forma, com o mesmo carinho mas a distância vai separar-nos, devagarinho. Sei que lutaremos contra ela de quando em vez mas também sei que essa coisa horrorosa que é o tempo fará o seu trabalho bem feito e ganhará a batalha. Odeio saber que esta morte lenta e anunciada irá existir, sem razão aparente.
Tenho saudades do Johnny, do Elio, sinto MUITO a falta do Filipe e agora preparo-me (ou tento...) com um misto de felicidade e tristeza para ver partir a pessoa "responsável" por estes posts serem publicados.
Se eu pudesse juntá-los a todos (e eles quisessem) e passar todo o meu tempo livre com cada um deles fá-lo-ia sem hesitar. Talvez seja a minha forma de dizer que vou ter saudades dos que ainda ficarão quando eu partir.
Decidi por isso que este blog será um espelho da minha relação com aquele que me incentivou a dar-lhe vida. Assim, ele viverá de acordo com a nossa capacidade de manter o mesmo nível e a mesma profundidade de comunicação, ainda que certamente mais escasso.
Este ciclo da minha vida está quase a encerrar-se, ou melhor, estou quase a encerrá-lo dentro de mim. Levo dos últimos anos tanta coisa...poderia discorrer durante horas e horas. Mas para resumir levo sobretudo no peito aqueles que amo, que de alguma forma me tocaram e souberam tornar-se especiais na minha vida.
E morro de medo não me ter tornado especial na vida deles.
São nossos, são um bocadinho de nós e nós somos um bocadinho deles. Parece que partilhamos a mesma carne que nos envolve os ossos.
É certo que estão carregadinhos de coisas que nos enervam e com que não nos identificamos mas estão também cheios de amor incondicional desde a primeira vez que nos puseram a vista em cima.
Hoje, vi, revi, conheci e reconheci. Cada um deles iluminou um bocadinho do meu coração de uma forma especial e aqueles que ainda não conhecia arranjaram um espacinho para eles também.
Sei que seria incapaz de os ver como antes, quase dia a dia. Mas também sei que também preciso mais deles do que o que tenho procurado acreditar.
Mas foi bom sentir saudades. E foi ainda melhor matá-las.
Este é um tema sobre o qual falarei mais vezes por aqui uma vez que se trata de um dos meus favoritos...
Parto do pressuposto principal: A História repete-se. A ideia é a de ciclo, de círculo, de eterna repetição.
A priori pode parecer-vos algo chato, rotineiro, mas essa ideia é absolutamente falsa. A repetição da História é, a meu ver, o espelho e o motor das nossas vidas. Trata-se da teoria que nos move e que nos faz aquilo que somos.
Há uns bons 10 anos descobri o livro Les Fleurs Bleues de Raymond Queneau que entrelaçava personagens de épocas diferentes da História num mesmo enredo para chegar a uma conclusão: de formas diferentes, a História repete-se.
Parte-se então do pressuposto que a essência é algo bastante básico e pouco extenso, um pouco como as cores primárias. Das combinações possíveis dessa essência derivarão então formas secundárias que muitas vezes nos parecem únicas mas que apenas são repetições umas das outras!
O objectivo do estudo e desenvolvimento desta teoria tem como objectivo final a aceitação e a libertação do Eu perante o Outro e ainda do Eu perante o Eu. A constatação da repetição é, juntamente com o Humor, a única forma real de lucidez Humana. A única constatação de Verdade, de algo que, embora etéreo, é palpável.
A construção inédita não existe. E não é esta afirmação um determinismo, apenas uma constatação. A verdadeira criatividade está precisamente em sermos capazes de criar com as barreiras que nos são dadas ou impostas: criar utilizando o que já existe, sermos capazes de ter um segundo, terceiro, quinquagésimo olhar sobre algo.
E sobre isto falarei mais tarde, com um projecto que me tem atravessado o espírito e que começa a ganhar alguma força...