sábado, 20 de agosto de 2011

Adeus

Depois do que falámos, discutimos, dissemos ou deixámos por dizer, dou por mim a tentar pôr fim a tudo isto, à procura de um fim efectivo e, ao mesmo tempo, a reabrir a porta porque me vou aproximar fisicamente de ti.

Falava ontem com um amigo sobre os motivos da minha escolha. Precisamente, um dos meus medos é que esta escolha tão difícil tenha um grande peso teu, ainda que inconscientemente. Tenho contigo uma relação de amor-ódio, dependência e distanciamento e por muito pouco são que isto possa parecer, acredito que é o nosso equilíbrio.

Hoje sei que não quero que a minha vida seja feita de uma experiência única vivida profundamente num acto de construção de algo. Não, quero coisas diferentes, pessoas diferentes com lugares diferentes dentro de mm. Certamente algumas perdurarão mais do que outras mas não quero pensar que vou ao teu encontro, que fazes parte do meu plano de futuro com essa certeza e segurança, tão clássicas!

Talvez por querer ter esta certeza luto tanto por um final. Mas o Eugénio de Andrade tem a sua razão...as palavras estão gastas.

Adeus
Já gastámos as palavras pela rua, meu amor, 
e o que nos ficou não chega para afastar o frio de quatro paredes. 
Gastámos tudo menos o silêncio. 
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas, 
gastámos as mãos à força de as apertarmos, 
gastámos o relógio e as pedras das esquinas em esperas inúteis.


Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada. 
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro; 
era como se todas as coisas fossem minhas: 
quanto mais te dava mais tinha para te dar. 


Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes. 
E eu acreditava.
Acreditava, porque ao teu lado todas as coisas eram possíveis.
Mas isso era no tempo dos segredos,

era no tempo em que o teu corpo era um aquário,

era no tempo em que os meus olhos eram realmente peixes verdes.


Hoje são apenas os meus olhos.

É pouco mas é verdade, uns olhos como todos os outros.


Já gastámos as palavras.

Quando agora digo: meu amor, já não se passa absolutamente nada.

E no entanto, antes das palavras gastas,

tenho a certeza de que todas as coisas estremeciam

só de murmurar o teu nome no silêncio do meu coração.


Não temos já nada para dar.

Dentro de ti não há nada que me peça água.

O passado é inútil como um trapo.

E já te disse: as palavras estão gastas.

Adeus

Eugénio de Andrade



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