segunda-feira, 18 de julho de 2011

AVÓ - da sequela das pessoas mais importantes da minha vida


Há cerca de 11 anos foi neste poema que arranjei coragem ou qualquer outra coisa com outro nome para superar a tua morte.

Hoje, relendo Sophia (há demasiado tempo que não o fazia), lembrei-me de ti. Lembrei-me das saudades imensas que deixaste em mim e do quão demasiado cedo partiste. Lembro-me de como nunca nada foi igual, como eu lidei tão friamente com a morte desde então porque já te perdi e nada, nada mesmo, pode trazer um sentimento mais duro do que a tua morte.

Poderia escrever horas sobre ti, sei que o farei mas não hoje, de uma assentada e num blog que não se quer só um guarda-jóias da memória. Fá-lo-ei em cada palavra avó, porque cada vez que eu escrevo, que eu respiro, que eu existo, é uma parte de ti que permanece sempre viva em mim.

Nunca mais
A tua face será pura limpa e viva
Nem o teu andar como onda fugitiva
Se poderá nos passos do tempo tecer.
E nunca mais darei ao tempo a minha vida.

Nunca mais servirei senhor que possa morrer.
A luz da tarde mostra-me os destroços
Do teu ser. Em breve a podridão
Beberá os teus olhos e os teus ossos
Tomando a tua mão na sua mão.

Nunca mais amarei quem não possa viver
Sempre,
Porque eu amei como se fossem eternos
A glória, a luz e o brilho do teu ser,
Amei-te em verdade e transparência
E nem sequer me resta a tua ausência,
És um rosto de nojo e negação
E eu fecho os olhos para não te ver.

Nunca mais servirei senhor que possa morrer.

Sophia de Mello Breyner Andresen
1919-2004


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